Sobre entrevistas de emprego e testes de direção

yup
(Essas são as memórias recentes de uma garota que nunca tinha passado por uma entrevista de emprego e que fez sua primeira prova prática (de direção) da vida. O texto vai ficar longo, mas queria compartilhar isso aqui. Quem sabe eu não ajudo mais alguém que ainda não passou por isso também?)


Estava marcado para as 14h e eu cheguei 14:06 – culpa do meu pai que me atrasou. Nervosa, vermelha, ansiosa, tremendo e sem ter a mínima ideia de como as coisas seriam. Parada no saguão da empresa com uma blusa mais ou menos social, cabelo arrumadinho, pouca maquiagem e segurando minha bolsa com as duas mãos.  Como se comportar numa entrevista de emprego, se nunca tive uma para saber? Seria uma pessoa me entrevistando? Duas? TRÊS? Iam perguntar sobre a minha vida ou sobre o futuro emprego? Haveria algum teste?

Estava marcado para as 11h e cheguei 9:30 – só pra garantir. Fila gigantesca, sol forte e um garoto que começou a puxar assunto comigo: era o segundo teste de direção dele e ele me disse que o segredo é ficar calma que tudo ia dar certo. Inclusive, ele não tinha passado no primeiro justamente pelo nervosismo (e porque tinha bebido na noite anterior..) Certo, ok. E se o instrutor for grosso? Vou ficar mais nervosa e não vou conseguir dirigir direito. E se ele for chato? E se me perguntar coisas demais ou tentar me desconcentrar de propósito? Já ouvi tantas coisas sobre esses examinadores. Eu simplesmente não sei lidar com isso.

Duas mulheres loiras e sorridentes se aproximaram e me chamaram. Despertei do transe momentâneo e pensei rapidinho: “Como elas sabem que sou eu? Poderia ser qualquer um aqui para a entrevista de emprego”, mas depois concluí que talvez fosse a minha cara de totalmente-não-sei-como-agir-excessivamente-séria ou o fato de que eu era a única em pé ali e com um copinho de água na mão.
Entramos numa sala separada e nos sentamos. “Qual o seu nome? Idade? Aspiração profissional?” E me disseram qual era o tipo de emprego e o que eu deveria fazer caso conseguisse a vaga. “Certo”, respondi. Tentei sorrir e uma das entrevistadoras sorriu de volta.

Deu a hora. Os examinadores saíram das suas salas e começaram a se dirigir para os carros dos alunos que seriam testados. Vi dois examinadores se aproximando – um homem e uma mulher – e vi a mulher falar: “ali, o QQ vermelho da Chery” e o homem balançou a cabeça concordando. Os dois estavam sorrindo.
“Céus, já estão pensando em como vão me reprovar?” Você sabe que não se deve confiar em todo mundo que sorri pra você, certo? Sorrisos podem enganar. “Mas talvez não. Tenho que ficar calma. Postura, garota. Você treinou para isso, oras!”

“Você já trabalhou antes?” Não, foi a minha resposta (a verdade). Certo, acabou, ponto final! Quem vai querer contratar alguém que nunca trabalhou na vida e não tem experiência nem no balcão da padaria da esquina, que seja?
“Certo. Tudo bem, Anna, mas agora me conte um pouco mais sobre você… em inglês. Se você for contratada, você precisará falar inglês integralmente aqui nessa instituição e eu preciso conhecer um pouco da sua pronúncia e fluência e saber se você é apta ou não. Pode ser?” Pode sim, respondi. Sorri.

“Anna Júlia… Ok, vamos começar. Pode ligar o carro e sair aqui à sua esquerda naquele portão em frente.”
“Anna, primeira à sua direita. – Agora, próximo retorno. – Anna, aponte pra mim por favor onde está o pisca-alerta e depois abaixe e levante o para-sol. – Próximo estacionamento, Anna.”
Está tudo bem. É apenas uma questão de concentração e calma.

Está tudo bem. É apenas uma questão de concentração e calma.

Ai meu Deus. O carro passou pelo quebra-mola e ficou “tremendo” depois que eu mudei pra segunda.
Ele me mandou ultrapassar. Será que eu estou lenta demais e ele não vê desenvolvimento em mim?
Garagem. “Anna, você tem três tentativas de cinco minutos cada. Cada marcha ré engatada é contada como uma tentativa.” Engatei marcha a ré e fiz todo o procedimento rapidinho, certo e de primeira.
“Eita, show. Tudo certo, bora voltar, primeira saída à direita.”
O instrutor me elogiou! Elogiou! Estou indo bem! Ok, vamos sair com o carro e…
Deixei o carro morrer.
“Não pode nem elogiar, né?”

Uma professora do Ensino Médio me veio na mente com uma de suas frases preferidas, de uma música chamada Serra do Luar: “É tudo uma questão de manter: a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo.”

A entrevistadora me elogiou e disse que meu inglês era muito bom e que ela percebeu que eu estava apta a conversar fluentemente. Acalmei um pouco e ela continuou a sorrir. Continuou conversando e me passou uma série de regras e coisas que eu deveria saber.
Ambas apertaram minha mão. “Entraremos em contato se você for selecionada, Anna, porque ainda temos algumas entrevistas para fazer. Boa tarde.”

Chegamos de volta na garagem do DETRAN. “Anna, para o carro aqui atrás desse gol branco.” Assim o fiz.
“Fácil demais, né? Acho que vou falar com o povo lá pra dificultar essa prova…” E o instrutor sorriu. Ele está brincando comigo ou o quê?
“Ok, Anna… O resultado sai segunda feira a partir das três horas da tarde. Boa sorte!” E saíram os dois.

“Não passei na entrevista, certeza. Elas notaram que eu estava nervosa. Eu sou inexperiente. Eu acho que errei a pronúncia de um dos verbos que falei em inglês.”

“Não passei na prova prática, certeza. Deixei o carro morrer uma vez. Soltei a embreagem rápido demais e o carro ficou tremendo depois do quebra mola. Quem mandou fazer só as vinte aulas obrigatórias, Anna Júlia? Devia ter feito mais. Vou ter de voltar para as aulas práticas de novo…”

Dia da entrevista, três horas depois: “Anna? Aqui é a coordenadora. Estou ligando para dizer que você foi selecionada e já começa amanhã. Pode ser? (…)”

Dois dias e 17 horas depois do dia da prova prática: “Alô, mãe? Tô no intervalo do trabalho. O quê? EU PASSEI? Você quer dizer passar, do tipo, PASSAR? APROVADA? (…)”

♥♥♥


E o que eu aprendi da minha primeira entrevista de emprego e da minha primeira (e única!) prova de direção é: calma é realmente um troço importante. Não é algo que falam que você tem que ter apenas da boca pra fora.
Sorrisos são essenciais. Atenção também.

Mas o que eu mais aprendi mesmo foi que: ninguém é um robô (sério). São pessoas – seres humanos lidando com seres humanos. A imagem que eu tinha era de pessoas totalmente frias e calculistas fazendo seu trabalho milimetricamente perfeito sem dó nem piedade, treinados para acabar com a mínima possibilidade de erro. Não é assim. No final, lembrei de algo que meu pai me dizia e eu não acreditava muito (mas que se provou verdade):

“Filha, quando você está frente à várias pessoas ou em algum momento importante, lembre-se: ninguém quer ver a coisa dar errado. Se você for dar uma palestra, por exemplo, ninguém quer ver você gaguejar e perder a fala, porque isso significa que elas também vão sair perdendo. Entenda: Você quer dar uma boa palestra e elas querem ouvir uma boa palestra, aprender mais e aproveitar o tempo delas ali. Então não se preocupe… Estão sempre torcendo a seu favor.”

E é isso!
Até mais, pessoal. :)

 

 

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7 comentários sobre “Sobre entrevistas de emprego e testes de direção

  1. Apesar de ter participado, ainda que indiretamente, de todo o processo adorei ler este relato. Sei que sou muito coruja, mas continuo dizendo que você tem um jeito muito gostoso de escrever. Bjs. Te amo.

  2. Parabéns pelas conquistas…. me vi em cada frase descrita quando passei pelas mesmas coisas. A diferença é que há muitos anos não existia internet pra gente registrar essas aflições, anseios e conquistas rs.
    Sucesso pra ti.
    Beijos.

  3. Isso me lembrou dessas minhas primeiras vezes tb… lendo seu post me fez recordar a sensação das duas partes, mas sobre a habilitação, me lembrei de qdo eu tirei a carteira de motorista no Japão.

    Kisu!

  4. Eu já te disse uma vez e vou repetir: você tem o dom da escrita Ju! Parabéns pelo texto e também pelas conquistas, de verdade, fico feliz demais por você viu?

    Que Deus abençoe sua nova fase de vida, sucesso florzinha! Beijos

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