A arte do esquecimento

25 de fevereiro

– Desculpa, filha, mas você vai ter que ficar sem lanchar hoje no colégio. Não consegui sacar dinheiro, porquê sua mãe levou todos os cartões de crédito com ela.
(Suspiros.)
-Tudo bem, pai. Ela deve ter esquecido.
– Com certeza esqueceu, como sempre esquece tudo! Hoje, se eu não tivesse lembrado ela, ela tinha levado os documentos do carro também! Você acredita que ela pegou o Sandero e meteu na poeira? O carro estava todo encerado, brilhando… E ela ainda queria continuar, só que eu tive que sair atrás dela correndo, tentando fazer ela parar… Não, sua mãe é irresponsável demais as vezes. Eu que tenho que lembrar de tudo, eu que tenho que avisar…

E continuou reclamando infinitamente. Chegamos na escola e ele combinou de ir me pegar na volta, seis horas em ponto – era dia de prova. Bateu o sinal e ele estava lá.

– Corre pra casa que eu estou morrendo de fome, pai!
– Culpa da sua mãe.
– Verdade, né? Vou ligar pra ela. (…) Mãe?

No trânsito, voltando para casa. Meu pai no volante, peguei o celular e liguei.

Mãe: Oi filha! Boa noite. Tudo bem por aí?
Filha: Mãe! Como assim você pegou o Sandero todo limpinho e colocou ele na poeira? E eu passei a tarde morrendo de fome, porquê a senhora levou todos os cartões de crédito e meu pai não conseguiu sacar dinheiro no banco!
Pai: Diz pra ela que se eu não tivesse perguntado e lembrado, ela teria levado os documentos do carro junto com ela também.
Filha: E meu pai disse que a senhora ia levando os documentos do carro junto, se ele não tivesse te lembrado.
Mãe: Uai, ele esquece os documentos comigo e eu que tenho que lembrar?
Filha: Pai, ela disse que o senhor esquece os documentos com ela e ela que tem que te lembrar?
Pai: Diz pra ela que ela guarda os documentos do carro naquela bolsa enorme dela e como é que eu acho?
Filha: Mãe, ele mandou dizer que a senhora fica guardando os documentos do carro na sua bolsa e..
Mãe: Mentira, porquê tava no painel do carro.
Filha: Ela disse que é mentira, porquê tava no painel do carro.
Pai: Fala pra ela que ela fica deixando os documentos do carro em um lugar onde eu não sei, e eu fico que nem doido procurando.
Filha: Mãe, ele disse que a senhora deixa os documentos em um lugar onde ele não sabe, e ele fica que nem doido procurando.
Mãe: Oras, mas o interesse é dele que não quer levar multa. Ele que tem que lembrar!
Filha: Pai, ela disse que o interesse é seu e o senhor que tem que lembrar.
Pai: Mas não fui eu que lembrei? Se eu não tivesse falado, ela ia levar os documentos com ela de novo!
Filha: Mãe, ele repetiu que mesmo assim, se ele não tivesse te lembrado, a senhora ia levar os documentos com você de novo.

Mamãe suspirou do outro lado da linha.
– Diz pra ele que eu o amo, então.
Pude imaginá-la sorrindo.

Filha: Pai, ela mandou dizer que te ama.

Olhei para o meu pai. A expressão briguenta e meio fechada virou um sorriso meio bobo e sem graça. Vi que ele tentou responder algo, talvez implicar um pouco novamente para “sair ganhando”, mas nada disse. Voltei para o telefone.
– Mãe, agora ele deu um sorrisinho bobo aqui e não sabe o que responder, por isso eu vou desligar. Beijo, te amo, tchau.
Desliguei.

“Um a zero pra ela, pai.”
Ele só sorriu.

Nota: isso aconteceu de verdade, há algum tempo, comigo. Eu achei lindo. Mas meio que me impressiona a facilidade que temos em brigar, em discutir e a nossa fragilidade perto de elogios e demonstrações genuínas de carinho. Não deveria ser o contrário?
De qualquer forma, responder nervosismo com amor sempre funciona. ♥

P.S.: Deixo aqui minha tristeza com a morte do Chorão.
E antes de vir alguém falar “Ah, nunca nem vi ouvindo uma música e agora que virar fã” “Ah, se ele fosse tão legal assim não se drogaria”:
Sejam mais maduros do que isso, pelo amor de Deus. A questão não é ser fã ou não, a questão é admiração e respeito. E a vida era dele, também. Cada um tem suas escolhas e não nos cabe julgar, certo? O que eu sei é que o Charlie Brown Jr., na voz do Chorão, marcou a geração anos 90 inteira com músicas de letras lindas, quase poesias.
Por isso, rest in peace, Chorão. :/

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9 comentários sobre “A arte do esquecimento

  1. Toda vez que leio essa “história” me faz sorrir ♥
    “responder nervosismo com amor sempre funciona, de qualquer forma.” concordo plenamente! E é engraçado de ver a reação :b hahaahahahaha

  2. Cara, que lindo. Até eu sorri meio boba, agora. que lindo, sério.
    Estou apaixonada pelos seus pais né pfvr.
    Vou vim ler esse texto várias vezes, restaurou minha fé no casamento. IODHSOIDHIOASD

    Anna, concordo com o que você disse sobre o Chorão. Cara, não é questão de “ser fã”, mas todo mundo já cantou Charlie Brown uma vez na vida ao menos, nem que seja a abertura de malhação kkkkk
    Rest in peace, Chorão.

    • Eu também achei.
      Fiquei feliz quando isso aconteceu.. ♥
      Restaurou sua fé no casamento, foi? IAHIUAHIUAHIAUHIAHIAUHIAUHAI Que bom \o/

      Exatamente!
      Eu fico muito revoltada com isso, sério. Quando alguém morre e as pessoas começam a homenagear, sempre chega alguém: “Ah, agora todo mundo virou fã” e tal. Não é isso… Quer dizer que só por eu não ter sido louca fanática ter tatuado o rosto da pessoa no braço eu não posso homenageá-la quando ela morrer? Ah, me economiza. Eu acho isso TÃO infantil! Acho que as pessoas podem e devem ser reconhecidas pelo que fizeram.
      E mamãe me disse algo uma vez: “Os mortos receberão mais flores do que os vivos, porquê o arrependimento é maior do que a gratidão.”
      E é verdade. Talvez a pessoa nem tivesse demonstrado o quanto gostava, de fato, enquanto ele ainda estava vivo.
      Vai saber?
      *desabafo* aiuhaiuhaiuhaiuhaiua
      Rest in peace. :/

  3. Concordo… Ainda é bem triste lembrar… Depois dele ainda foi o Champignon. Eu realmente comecei a gostar das músicas, ou pelo menos ouvi-las, depois que o Chorão morreu. É um mal que veio para o bem. O cara quis se drogar, problema o dele. Tu só tem que gostar ou não das músicas dele. Não, mas tem gente que acha que porque o cara se droga, não deve gostar da arte dele. Muito chato, isso. Ele nunca mandou o povo se drogar… Ele era consciente do mal que a droga causa… “Faça o que eu falo, não faça o que eu faço”.
    Amei o texto. KKK. Hilário, e fofo. Essa É a minha mãe. Esquecida… Esqueceu minha idade, e minha data de nascimento… Só ela mesmo…

  4. É um artista, bom, a menos no mundo. Mas também é um ser humano a menos no mundo. Que, talvez, não sei né, em um momento de fraqueza se rendeu a droga. Triste. Mas as letras das músicas do CBJR dizem tanto sobre ele… Eu ouço, e é como se ele estivesse aqui, vivo.

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